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O humano tecelão de símbolos: uma reflexão metalinguística

  • Foto do escritor: Luciana de Paula
    Luciana de Paula
  • 15 de nov. de 2024
  • 9 min de leitura

Atualizado: 17 de dez. de 2024

Por Luciana de Paula


O ensaio que se segue é um conjunto de reflexões estabelecidas ao longo do primeiro ciclo do Curso de Formação em Psicanálise oferecido pelo Centro de Estudos Psicanalíticos, o CEP. Tais reflexões se deram sobre a exigência da entrega de um trabalho, uma organização escrita que, conforme orientações iniciais, não deveria se aproximar de um trabalho acadêmico.

Tendo em vista as exigências colocadas, minha experiência de produção escrita no meio acadêmico e alguns elementos com os quais tive contato ao longo do primeiro ciclo, redigi um ensaio metalinguístico e psicanalítico sobre o ser humano e sua necessidade de significar seja de forma mais espontânea seja pelas determinações da linguagem acadêmica. Tal produção foi escolhida para ser objeto de uma comunicação oral no Simpósio Interno do CEP que se deu no segundo semestre de 2022 e encontra-se publicada no site do CEP, no link https://centropsicanalise.com.br/publicacao/23.


O humano e suas representações


“Texto” vem do latim texere (construir, tecer),

cujo particípio passado textus também era

usado como substantivo, e significava

“maneira de tecer”, “coisa tecida”, “tecido” [...]

- Dicionário de etimologia on-line -


Na ocasião da primeira aula do Ciclo I uma série de orientações nos foi dada sobre o desenrolar do presente curso de formação em psicanálise. Embora tais explicações tenham ressoado em mim de forma coerente, uma orientação específica me causou certo incômodo: a orientação acerca da escrita do presente trabalho, elemento que, apesar de constituir parte dos requisitos para a aprovação no curso, passa longe do formato avaliativo acadêmico típico de instituições universitárias.

Ainda que eu reconheça a verdadeira intenção por trás de tal afirmação, o desejo de se distanciar do lugar de julgamento e até mesmo tutela ocupado pelo olhar avaliador, inquiridor e demasiadamente objetivo muitas vezes sustentado pelas instituições acadêmicas de formação superior, ainda observo algum desencontro. Na vivência que tive a oportunidade de experimentar, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), na maioria das vezes (se não na totalidade das ocasiões) recebi, de meus professores, uma formação bastante refratária ao já mencionado formato avaliativo acadêmico típico.

Embora vigilante em relação a um método de organização textual e às regras gramaticais de escrita, sempre fui orientada no sentido de sair do labirinto seguindo o fio de Ariadne: fruir uma intuição, uma inquietação verdadeira, por mais simples que esta o fosse. Fui incentivada a encarar com sinceridade minhas elaborações iniciais e persegui-las na tentativa de, lentamente, ir dando espaço e desenvolvendo algo como um faro investigativo, uma curiosidade honesta e alegre, um prazer em cada pequena descoberta que, aos poucos, vai se revelando coerente, como a regra por trás da trama em uma obra de tapeçaria. Essa maneira de proceder, conforme a orientação de meus professores, lentamente, conduziria cada um de nós, alunos, na época, a uma escrita um pouco mais original resultante do aprazeirar-se pelo buscar, refletir, organizar e, finalmente, tecer.

Ainda que o prazer esteja implicado, existe algo mais. A escrita, sem dúvida, exige angústia, erro, reconhecimento, maturidade, recomeço, fôlego dentre outros elementos. Contudo, acredito que a verdadeira lição que meus professores da graduação tentaram transmitir, em relação à escrita acadêmica, foi o fato de que não há produção valiosa que não parta dos fluídicos fios de Eros, mesmo se, com tal escrita, o objetivo seja criticar ou refutar um pensamento anterior. Às vezes, a escrita acadêmica nos coloca em um campo de batalha e a pluralidade e heterogeneidade de fios evocam a beleza e o incômodo tão característicos do diálogo democrático.

Confesso que, a princípio, essa orientação recebida na graduação me foi bastante complicada. Escrevi muitos textos bem ruins, ingênuos a ponto de inspirar compaixão. Mesmo assim, sempre houve um professor pronto a me orientar, elencando críticas, recomendando leituras e passando algumas horas em seu gabinete, conversando comigo e fornecendo-me indicações de leitura, novos novelos e teares. Havia, nesse processo, um encontro: o encontro de um ser humano gentil, a compartilhar aquilo que sabia, com um ser humano, embora um pouco desastrado, ávido em seu desejo pelo conhecimento novo. O professor Mário Bruno Sproviero, que muito dividiu comigo, disse em uma entrevista[1], retomando Freud: “Lembro-me de um exemplo de Freud que diz que educar uma criança é tão difícil quanto conduzir um barco por Sila e Caribdes, evitar o escolho da repressão e também o de deixar a criança entregue a si mesma” (SPROVIERO, LAUAND 1997). Com a escrita acadêmica era semelhante: havia um cuidado no sentido de conduzir o aprendiz pelas vias textuais, prevenindo-o quanto às exigências da forma, alertando em relação ao engano, mas, ao mesmo tempo, estimulando o cultivo de certa independência criativa responsável. Os pontos da tessitura são sempre determinados, mas a sequência de pontos, a imagem e as cores, somos nós quem escolhemos, tentamos harmonizar e respondemos pela obra final.

Depois de algum tempo com esses professores, dos quais a educação/formação que recebi estava profundamente atrelada à escrita acadêmica, compreendi que, para mim, é muito forte a ideia de uma escrita prazerosa, que traz ao pensamento o conforto da forma, a alegria da compreensão, que consola ao dar voz a certas angústias, purgando a tensão. Tais qualidades da escrita (e muitas outras) fazem com que o material do qual ela se constitui seja tratado como língua materna. O texto, às vezes, resulta em um manto quentinho.

Mesmo tecida pelos fios da língua materna, ressalto, mais uma vez: escrita acadêmica não é só prazer. Muito embora ela tenha seu braço acalentador-consolador, ela também irrita, é ingrata, exige uma coerência além dos instintos, um tempo que não é o do escritor, uma precisão apurada. Às vezes, os fios se embaraçam armando ciladas sem vacilar, jogando na cara do empenhado e por vezes exausto escritor-tecelão suas contradições e suas incoerências de forma nua e crua. Nesse sentido, observo o texto como uma face zombeteira do inconsciente que revela aquilo que há de pior em cada um de nós e que, por algum motivo, nos escapa. Quantas não foram as vezes nas quais eu me assustei e me envergonhei com o que havia escrito. Que suposição ingênua! Que conclusão óbvia e pobre! Que grande contradição! Mesmo assim, foram essas revelações que me fizeram pensar acerca da pessoa que eu era e acerca da pessoa que eu ainda quero ser, em outras palavras, foram essas revelações incômodas que me colocaram, humildemente, em movimento, nas trilhas da experiência humana, no desejo de tentar ser alguém melhor.

Talvez, desse caráter materno e paterno, a constante mais confiável a qual podemos chegar aqui é a de que a escrita acadêmica é intensa, é uma poderosa via de manipulação de energia pelo prazer e pela dor. Fios rígidos e fios macios compõem estrutura sólida e toque agradável.

Hoje, depois de algum percurso no meio acadêmico, no desenvolvimento de pesquisa, reconheço que somente há sentido e fôlego àquilo que fala forte ao coração, seja pelo amor, seja pelo ódio, seja pela potência construtiva, seja pela destrutiva. É somente por isso que a pesquisa faz sentido. “Sem tesão não há tese!”, dizia, em suas aulas, o professor Emerson da Cruz Inácio. Sem tesão não há tese, sem raiva e revolta não há manifesto, sem curiosidade não há artigo científico, sem prazer por pensar não há ensaio e sem desejo de ensinar não há texto pedagógico. Sem as emoções oriundas dos fluxos libidinais, sem entusiasmo e sem intensidade, nada na pesquisa e, portanto, na escrita acadêmica é verdadeiro.

Não estaria, nessa escrita enquanto objeto de amor e de ódio, os mesmos pontos de ancoragem utilizados por Freud para a composição das pulsões de vida e de morte? É interessante observar que a escrita, enquanto objeto pulsional, em certa medida contém as grandezas instintuais. Não sei se compreendi bem, mas acredito que há algo de uma organização especular diante da qual o desejo e seu objeto confundem-se, comungam em identidade, assemelhando-se e anulando suas fronteiras, quase como se, no breve momento da satisfação, desejante e objeto se tonassem unos. Em minha relação com a escrita, acredito que esse é o gozo. Suspeito que deva ser assim com qualquer objeto pulsional quando este é considerado em profundidade. O tecelão, envolto sob seu manto, adormece.

Nas minhas iniciais trilhas reflexivas em relação a esse gozo através da escrita, um fato específico me chamou muito a atenção: ao participar do encontro Literatura e Psicanálise: como narrar a si mesmo? Auto ficção e outras narrativas autobiográficas, promovido pelo Centro de Estudos Psicanalíticos, o CEP, no dia 06 de Maio de 2022, observei, com grande entusiasmo, a fala da escritora Giovana Madalosso, que retomava uma ideia de Lobo Antunes para quem “A escrita acontece quando a mão descola da cabeça”.

Mesmo entendendo que Madalosso se referia à escrita literária, ainda assim observo alguma semelhança em relação à escrita acadêmica. Reconheço esse fato na minha experiência que, mesmo com todas as suas exigências e formalidades, conserva um espaço de “ascese inconsciente”. Há um momento no qual não sou eu, não é meu eu que está no controle a ponto de pegar-me pensando “Caramba! Fui eu quem escreveu isso?”. A face zombeteira do inconsciente, novamente, se manifesta e o manto a cobrir o tecelão o envolve como um casulo e reserva a seu autor a surpresa de uma metamorfose.

Não estaria aí, nessa escrita que nos escapa, certa “plenitude” humana de todos nós enquanto seres simbólicos? Na linguagem e, portanto, na escrita, somos tudo, até aquilo que nos escapa, que vem sozinho, não sabemos de onde. Há manifestação inconsciente na medida em que há um pouco de nós em cada gesto, na realidade, creio que há manifestação inconsciente na medida em que há algo além de nós em cada gesto. Mesmo assim o recalque persiste, não como interdição, não como contrariedade, mas enquanto parte integrada à obra, pois, na escrita, na significação, na arte, na representação, há espaço para aquilo que a moral e o tabu condenam. É uma transgressão sem, na realidade, transgredir. Mergulhamos sem medo nas profundezas inconscientes porque, no símbolo, na escrita, o amparo do Édipo permanece. É a totalidade do desejo sem a desconexão da loucura. Temos tudo e o ego se conserva à revelia de uma plenitude que seria aniquilação. Na escrita, no símbolo, na significação, o ego permanece. A escrita é a lei que liberta. O tecelão, liberto de seu casulo, voa com asas de borboleta das quais brotam os próprios fios que se tecem espontaneamente em nuvens e azul.

Escrita, fluxo, movimento, reconhecimento, surpresa, liberdade. Tudo isso só é verdadeiramente intenso se resultante de profundos fluxos de energia vital, de tamanha pulsão que somente aqueles dotados da coragem necessária para arriscar colocarem-se no papel de ingênuos e idealistas são capazes de compreender. Freud foi assim. Por quantas vezes ele não foi apontado, ridicularizado e taxado como objeto de riso vexatório e de escárnio por ousar tratar daquilo que, apesar de toda moral, todo tabu e de toda limitação intelectual, para ele, era verdadeiro e, para ele, merecia ser materializado em palavras, em escrita e em teoria?

Inspirada e admirada pela coragem de Freud, acredito profundamente que esses fluxos energéticos trabalhados, observados inicialmente, na presente reflexão, em relação à escrita, devam estar por trás de um movimento maior de compreensão do ser humano em relação a si mesmo, ao outro e ao meio no qual ele se insere. A esse movimento, e a outros elementos que eu ainda não domino, mas que estou ansiosa por aprender, deu-se o feliz nome de psicanálise, a vultuosa tapeçaria de um sábio tecelão voador.

A brevíssima elaboração apresentada anteriormente considerou a escrita acadêmica em sua faceta prazerosa e arredia, reconhecendo, nessa mesma escrita, enquanto objeto pulsional, os elementos das pulsões de vida e de morte. O fato de o objeto conter em si elementos característicos das pulsões levou à suposição de certo caráter especular entre desejante e objeto. Tal identificação nos conduziu à ideia de gozo como um momento no qual a manifestação inconsciente acontece na plenitude da tessitura linguística, obra do ser humano enquanto tecelão de símbolos. Tal revelação é reservada àqueles que, assim como Freud, não se curvam ao discurso dominante da moral e do tabu, mas se entregam à intensidade do desejo que clama por representação, tecelagem e voos.

Finalmente, gostaria apenas de registrar que classificações não fazem muito sentido em relação à escrita quando esta é observada em profundidade e como objeto de pulsão. Por isso, e respeitando a essência humana da contradição, permito-me terminar a presente reflexão sobre a escrita acadêmica com um poema. O poema se chama Rupestre e foi escrito na ocasião de uma viagem à cidade de Januária para visitar o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, local que conserva uma belíssima série de pinturas rupestres, primeiras tramas de nossos antepassados simbolizadores.

 

Rupestre

Arte Rupestre, Brasil, Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, Januária, Cavernas
Luciana de Paula - Parque Nacional Cavernas do Peruaçu

 

É por necessidade que o homem simboliza

Risca o carvão em uma pedra e significa

 

Fazer do mundo parte de sua mente

Criar palavra incessantemente

 

Magia, linguagem, semente

Humano, palavra, alento,

Sentimento

 

Pensamento, razão em movimento

Caverna, rocha, expressão, simbolização, livramento

 

E até hoje falam

Perpetuam sua voz pelo tempo

Tendo por testemunha o firmamento

 

Lá reside o sentido em desenho

É o signo linguístico, alma humana, no sedimento.

 

[1] Entrevista mencionada disponível em: www.hottopos.com/mirand3/linguage.htm acessada em 29/05/2022.


Referências

 

CENTRO DE ESTUDOS PSICANALÍTICOS – CEP. Literatura e Psicanálise: como narrar a si mesmo? Autoficção e outras narrativas autobiográficas. Encontro ocorrido em 06/05/2022.

 

DE PAULA, Luciana. Rupestre. In: Januária. Livreto de poemas publicado de forma independente. São Paulo, 2020.

 

FREUD, Sigmund. Os instintos e suas vicissitudes, 1915. In: FREUD, Sigmund. A história do movimento psicanalítico. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 115-144.

 

FREUD, Sigmund. Repressão, 1915. In: FREUD, Sigmund. A história do movimento psicanalítico. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 145-162.

 

SPROVIERO, M. B. LAUAND, L. J. Linguagem e consciência: a voz média. Disponível em http://www.hottopos.com/mirand3/linguage.htm acessado em 29/05/2022.



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