Uma boa história
- Luciana de Paula

- 15 de nov. de 2024
- 10 min de leitura
Atualizado: 17 de nov. de 2024
AUTOPSICOGRAFIA
Fernando Pessoa
O poeta é um fingidor
Finge tanto e tão intensamente
Que chega a fingir ser dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
[...] Também não sabia no que dá mentir. Comecei a mentir por precaução, e ninguém me avisou do perigo de ser tão precavida; porque depois nunca mais a mentira descolou de mim. E tanto menti que comecei a mentir até a minha própria mentira. E isso – já atordoada eu sentia – isso era dizer a verdade. Até que decaí tanto que a mentira eu a dizia crua, simples, curta: eu dizia a verdade bruta.
Trecho de Sem Aviso de Clarice Lispector
Introdução
O conto que se apresenta a seguir é o resultado de algumas reflexões que tive ao longo do curso de formação em psicanálise. Na realidade, trata-se de um balanço, uma avaliação resposta-artística que materializei a algumas inquietações, alguns incômodos com os quais me deparei ao longo de todo o percurso experimentado junto ao Centro de Estudos Psicanalíticos - CEP.
O primeiro desses tais incômodos e o principal deles, o que, de fato, me levou ao eixo principal da criação do conto, foi observar alguns colegas de formação, geralmente aqueles advindos de um curso superior da área de exatas ou biológicas, extremamente preocupados com a busca de um eixo de “verdade cartesiana” a sustentar a psicanálise. Tal fato ainda foi reforçado pelo lançamento do livro “Que bobagem” de Carlos Orsi e Natalia Pasternak, que colocam a psicanálise em um lugar de charlatanismo e picaretagem. Confesso que isso me incomodou muito, até me angustiou. Sou formada em letras e uma das lições mais valiosas que a literatura pode me oferecer foi a revelação de verdades universais por trás das construções mais distanciadas das amarras oferecidas pela coerência de nossa pobre realidade. O poeta é, antes de qualquer outra coisa, um mentiroso contumaz. Por assim o ser e humildemente assim se entender, é reservado a tal penante a pena do maior saber, o vislumbrar de uma verdade muito maior do que a “verdade” que a “realidade” pode oferecer. O curioso é que o preço de se colocar como via para essa verdade além não é um lugar de poder, mas justamente o seu contrário, o lugar de menos valia, a margem do senso comum estabelecido pelo capitalismo, o desajuste e, aos olhos de muitos, a loucura. Por isso, minhas estimadas personagens Literatura e Psicanálise são tão maltrapilhas e tão felizes em maltrapilhas serem.
Corrobora esse lugar de humildade e desajuste de minhas queridas personagens o caráter assumido da Literatura em relação à ficção, à fantasia, aos próprios desejos e, na Psicanálise, o lugar de não saber e ouvir.
Além da necessidade de afirmação de uma verdade cartesiana absoluta, e da humildade que há no desajuste como chave para o vislumbre de uma verdade maior, ainda trabalho, de modo metafórico, ou seja, melhor dizer, brinco criticando o absolutismo que advém de algo como uma suposta autoridade vaidosa que envolve todo aquele que, ingenuamente, se acredita numa posição de autoridade, num contexto narcisista lamentavelmente regredido como se mostra, ainda, nossa contemporaneidade. Num mundo onde todos gritam “EU!”, constitui uma revolução necessária o ato humilde de ouvir, eis aí a maior contribuição dos estudos psicanalíticos à loucura cotidiana travestida pomposa e lamentavelmente de retidão imparcial e objetiva. Tudo o que concebemos é humano e, por isso, tendencioso e atravessado pelo desejo. Enquanto não observarmos isso, em sua devida medida e importância, continuaremos servos de uma guerra sangrenta: a guerra de todos contra todos, tão mentirosamente e, portanto, tão verdadeiramente descrita por Thomas Hobbes em Leviatã. Quem seria esse Estado-Leviatã em nossos tempos? Alguém muito poderoso, ou seus discursos, suas ideias tendenciosamente objetivas e imparciais. Quem é o louco nessa história toda? Quem realmente é livre e quem é escravo? Quem vive e quem está morto? A tais perguntas tão duras, busco, se não resposta, consolo, no colo tão aconchegante e nas palavras tão leves que o humor simples, quase infantil, de “Uma boa história” vem oferecer. Espero que meu texto possa gerar um sorriso na face de alguém cansado que o vier a ler.
Uma boa história
Eis que em um dia, as ciências humanas se organizaram em um evento numa grande universidade, queriam provar que, embora, algumas vezes, ou mesmo muitas vezes, fossem rebeldes ao método cartesiano, tratavam-se, invariável e irrefutavelmente, da verdade.
Vangloriavam-se por realizarem falas muito contundentes, argumentando fervorosamente seu estatuto e seu compromisso com a busca e a afirmação da mais pura verdade. A História, muito bem alinhada em um tailleur clássico, caríssimo, de uma marca italiana que lançava uma coleção retrô, jurava que todas as suas afirmações resultavam de registros materiais. A Geografia, num traje aventureiro e presunçoso, à la Lara Croft, dizia com segurança que seus dados vinham de leituras precisas em relação ao meio de observação. A Retórica e a Filosofia cada uma em um tailleur com bordados de folhagem em estilo grego antigo, uniram-se em torno do estabelecimento de uma coerência baseada em causas e consequências, silogismos, alertando para o perigo das falácias etc., etc., etc. A Psicologia faltou, estava ocupada tratando da Pedagogia que tinha apresentado um atestado: tinha sido internada por conta do estresse, mas cada uma das ciências humanas presentes defendia, a seu modo, a eficácia de seu método.
Nesse mesmo dia, no cantinho da sala do evento, estavam a Literatura e a Psicanálise, bem quietinhas, bem matutas. A Psicanálise tinha uma camisa xadrez, surrada, mas bem limpinha; um par de sandálias havaianas bem usadas, dessas que se encontrou aos montes com a reforma psiquiátrica nos hospitais fechados e que Arthur Bispo do Rosário usou em seus pés e em algumas de suas obras. Além disso, a Psicanálise tinha ainda uma calça de algodão cru, um chapeuzinho de palha desmanchando e um cigarrinho fedido e mal enrolado na boca. A Literatura, coitada, nem isso, estava sem camisa, só com um shortinho feito com uma calça de moletom cortada, estava judiada, com os joelhos ralados, descalça e com os pés grandes, grossos, calosos sobre o chão liso e frio da universidade em que o evento acontecia. Enquanto a Psicanálise apreciava seu cigarrinho fedido, a Literatura apenas chupava um matinho que tinha apanhado no caminho.
Muito sem jeito, e com a simplicidade que apenas uma mente ciente de seu lugar de não saber poderia ter, a Psicanálise criou coragem, aproximou-se da Literatura e perguntou:
- Escuta, o que que é um registro?
A Literatura, com muita humildade, respondeu:
- Olha, eu não sei direito não, mas parece que um registro pode ser uma coisa material, concreta, que alguém faz baseado em seu próprio entendimento, sabe? É como se eu pensasse uma coisa aqui, daí eu pego um papel e escrevo ou desenho aquilo que eu pensei. Hoje em dia muita gente faz isso nas telas, com vídeos, mas já fizemos isso em paredes pela natureza, em cavernas, rochas, cascos de tartaruga...
- Então um registro depende daquilo que alguém pensou um dia? – Indagou a Psicanálise muito intrigada.
A Literatura continuou com a mesma humildade:
- Não sei, mas acho que sim.
A Psicanálise encucada, continuou:
- E por que a história jura que, só porque foi registrado, é verdadeiro? Por trás de todo registro não pode haver uma mente equivocada ou um mentiroso consciente?
E a Literatura:
- Pois é, não sei. Mas daria uma boa história.
A Literatura e a Psicanálise seguiram em silêncio por mais algum tempo, mas logo a Psicanálise não se aguentou e perguntou novamente:
- Escuta, o que que é uma leitura?
- Então, eu também não sei muito bem direito não, mas parece que a leitura é uma interpretação que alguém faz de algo que existe: posso ler manifestações naturais nos tipos de vegetação, nos climas, posso ler as nuvens no céu para saber se vai chover, posso ler os sinais deixados na cena de um crime, posso ler o que alguém escreveu, registrou, desenhou, esculpiu...
A Psicanálise continuou com seu pensamento simples:
- Se lê aquilo que existe por si só ou o que alguém produziu?
A Literatura seguiu:
- Até o momento, parece que sim.
A Psicanálise, então continuou:
- E por que a Geografia acha que suas leituras são a mais pura verdade? Uma leitura também não depende dos olhos e do entendimento de alguém que pode ser um equivocado, um tendencioso ou um mentiroso? Mesmo leituras realizadas por instrumentos ou máquinas, são a leitura verdadeira da realidade ou a leitura do meio em equilíbrio com a interferência do instrumento de leitura ou com o observador?
A Literatura concluiu:
- Não sei, mas daria uma boa história.
A Psicanálise insistiu:
-Escuta, se é possível ler tudo aquilo que existe, parece que dá pra ler muita coisa, num é?
A Literatura respondeu:
- Parece que sim. Podemos ler palavras, desenhos, fenômenos da natureza, mas também podemos ler atitudes, comportamentos. Podemos tentar ler o olhar de alguém para pensar sobre o que se está sentindo, e isso, acho que você sabe muito bem.
- Eu não sei de nada.
A Literatura riu alto.
- Ôxe, pois se você não sabe eu muito menos. Eu ainda sou considerada mentirosa! Me expulsaram da República, chamam meus poetas e escritores mais dedicados de mentirosos. Me acusam de perda de tempo, de alienação e de ser vagabunda.
A Psicanálise seguiu:
- Pelo menos não te chamam de coaching, e não te acusam de ficar horas e horas ouvindo as mentiras de um doido deitado sobre um divã. Mas escuta, isso incomoda você?
A Literatura conteve o riso e, serena, respondeu:
- Acho que não, pois foi na clandestinidade da mentira que conheci a fantasia, a ficção, ampliei as fronteiras da imaginação, traduzi em palavras os desejos e, no meio de tanta mentira, acho que encontrei a verdade mais verdadeira, muitos dos meus já disseram que, de tanto fingir, chegaram a fingir ser mentira aquilo que se carrega de mais verdadeiro.

Sou livre, sou livro,
vivo e deixo viver,
e quanto mais hei de mentir,
mais hei de conhecer
A verdade verdadeira
Absoluta de cada ser
Cada olhar carrega em si
A verdade de seu viver
Eu carrego todas elas
Na essência do meu ser!
- Talvez não haja, minha cara Psicanálise, verdades, mas perspectivas, e cada uma delas valiosíssimas, cada uma delas necessitando de um espaço, um contexto, um pretexto, um motivo ativo, um motivo altivo. O limite é a linguagem, a intelecção. Quando nenhum ser humano conseguir entender, não há sentido, mas até lá, tudo pode ser dito, desde que se deixe claro que é Literatura. Dizer é meio caminho andando para viver, de forma que cabe a mim a tarefa de ser rascunho da vida, vindas e idas, vindas e idas, eu sou pensamento, concebido em forma, eu sou talento, eu sou momento, letramento. Verdade e mentira é muito pouco, pequeno, perto dessa necessidade de dizer.
A Psicanálise sorriu contente, e disse:
- De fato, acho que somos as únicas aqui além, muito além, dessa necessidade narcisista regredida de assumir para si a alcunha de verdade absoluta. Que a engenharia e a medicina o façam, vá lá, mas nós, as humanas, nós não. Há nisso algo de negar a nossa essência, de silenciar em nós o que nos faz autênticas, de comprimir a riqueza de um universo infinito em caixinhas comercializáveis. Será que foi por isso que a Pedagogia adoeceu?
A Literatura seguiu:
- Pobre Pedagogia, eu mesma teria tanto a lhe oferecer não fossem os índices tortos e os problemas sociais que recaem sobre ela. Gosto dela, acho ela muito bonita.
- Sim, também gosto muito da Pedagogia. Você traduz a vida em palavras, falsas e verdadeiras justamente por serem inicialmente falsas. Eu às escuto, as leio. Mas só a Pedagogia pega na mão do pequenininho e o solta para ele voar, somente ela realiza parte do percurso da vida e nisso, minha cara, somos coadjuvantes.
A Literatura, curiosa, perguntou:
- Ah é? Pois diga, Dona Psicanálise, o que você mais gosta de ler?
- Eu leio as pessoas, sabe? Mas, em Literatura, gosto de tudo, talvez tenha um gostinho especial pela mitologia. Os mitos são literatura?
A Literatura riu:
- Ahhhhh, sim, os mitos são literatura, mas são uma parte de mim de quando eu era apenas uma garotinha. Naquela idade que queremos saber o porquê de tudo. Os mitos são as respostas que me deram. Os mitos são os momentos da minha infância quando a ciência de tudo repousava na magia.
- Pois eu gosto muito!
A Literatura se lembrou com carinho:
- A Pedagogia também gosta.
Mas logo emendou alertando:
- Ahhh, pois tome muito cuidado, viu, ô Psicanálise, são tudo mentira!

A Psicanálise entrou na brincadeira rindo:
- Uhhhhh, mentira, uhhhhhhh. Sim sim, mentiras, mas mentiras valiosíssimas. Assim como os sonhos, talvez?
A Literatura, empolgada respondeu:
- Sim, sou sonhos trazidos à forma, brincando com a coerência. Talvez eu nada mais seja do que um grande amontoado de sonhos realizados, escritos ou contados por aí.
A Psicanálise sorriu.
Logo veio a Evidência, a reitora da universidade. Saudou de modo pomposo as ciências humanas que pateticamente esforçavam-se para submeterem-se a ela e escorraçou a Literatura e a Psicanálise da sala do evento dando tiros para o alto, estreando o CAC recém adquirido:
- Essas duas maltrapilhas! Fanfarronas! Não temos tempo a perder com a balbúrdia dessas vagabundas, maloqueiras!
No perereco da expulsão, a Psicanálise estourou a alça de suas sandálias, correndo de pé no chão com o calçado estragado preso ao tornozelo, atrapalhando a fuga. O chapéu desmanchando voou, só o cigarrinho fedido permaneceu na boca. Já a Literatura, a pobre Literatura, caiu no chão e fugiu de quatro, perdendo não apenas as cascas dos ferimentos nos joelhos, mas também a tampa do dedão do pé.
Após a fuga, a Psicanálise olhou em volta buscando pela amiga. Encontrou a Literatura ofegante, sentada atrás de uma caçamba, com o sangue escorrendo pelas canelas.
- Eita nóis heim, Literatura. Machucou?
A Psicanálise, meio desastrada, retirou a camisa xadrez, surrada, mas limpinha, e pôs-se a limpar a pobre e sofrida amiga. A Literatura arregalou os olhos brilhantes, olhou para a amiga empenhada em seus cuidados, deu um sorriso e disse:
- Não, mas daria uma boa história!
A psicanálise olhou nos olhos brilhantes da Literatura, sorriu e disse:
- Pois eu estou louca para escutar!
As duas riram juntas, gargalharam. Encantadas uma com a outra, saíram dos muros da universidade e ganharam o mundo, não um mundo teórico, ideal, não, mas o mundo de verdade.



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