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A agulha contra o abismo: caso Agnes Richter

  • Foto do escritor: Luciana de Paula
    Luciana de Paula
  • 15 de nov. de 2024
  • 17 min de leitura

Atualizado: 17 de dez. de 2024

A postagem a seguir é um estudo de caso que realizei com base na observação psicanalítica sobre uma obra de arte: a jaqueta de Agnes Richter. Sempre me fascinou o poder terapêutico e expressivo das artes produzidas em situação de internação ou por pessoas em situação de sofrimento mental. O caso resultou de um processo intenso de pesquisa, um paixonamento que experimentei, diante da intrigante história de uma mulher independente, muito à frente de seu tempo que, assim como muitas, por tanto incomodar o status quo de uma hegemonia masculina, acabou em uma instituição psiquiátrica.


A agulha contra o abismo: caso Agnes Richter


A Coleção Prinzhorn do Hospital Psiquiátrico da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, conserva um total de vinte mil obras de cunho artístico elaboradas por internos da instituição psiquiátrica. Em meio a todo esse acervo, está A Jaqueta de Agnes Richter.


Agnes Richter: Jaqueta pequena, linho institucional, fios coloridos, tecido de lã marrom (1895), 38,5 × 42,0 cm, Coleção Prinzhorn, Heidelberg, Inv. Nº 743. Fotógrafo: Arnaud Conne.
Figura 1: Agnes Richter: Jaqueta pequena, linho institucional, fios coloridos, tecido de lã marrom (1895), 38,5 × 42,0 cm, Coleção Prinzhorn, Heidelberg, Inv. Nº 743. Fotógrafo: Arnaud Conne.

É essa obra que orienta a nossa investigação, não apenas em torno de sua autora, a própria Agnes, mas das condições às quais estavam submetidos os internos, sobretudo as mulheres, no final do século XIX e início do século XX.

Iniciaremos com um percurso biográfico de Agnes, descreveremos a jaqueta e, finalmente, teceremos uma breve análise do caso em exposição empreendendo um mergulho no abismo tendo a agulha como instrumento capaz de atribuir forma ao caos.


Agnes Richter


Nascida em 1844, Agnes Richter morou na cidade de Dresden, na Saxônia. Com a morte prematura de seu pai, ela viveu com a mãe e três irmãos. Começou a trabalhar como empregada doméstica nas casas de Dresden até que, em 1880, por volta de seus 36 anos, migrou para os Estados Unidos.

Lá, trabalhou como empregada doméstica e juntou uma considerável quantia. Em 1888, Agnes retornou a Dresden e começou a trabalhar como costureira. Aos 44 anos, sozinha, ela passou a sentir muito medo e a suspeitar do fato de que queriam lhe roubar o dinheiro acumulado durante seu tempo nos Estados Unidos. Assim, Agnes entrava em conflito com seus vizinhos e acionava a polícia com frequência. Em 1893, num desses desentendimentos com os vizinhos, a própria Agnes chamou a polícia e foi levada presa por importunação e invasão.

Da prisão, ela foi conduzida ao Asilo Para Lunáticos da Cidade de Dresden onde ela se mostrou, a princípio, extremamente agitada. Ela dizia aos médicos que, por muitas vezes, o seu dinheiro havia sido roubado e que ela queria que fossem tomadas as medidas cabíveis contra as pessoas que a roubaram e a internaram no asilo. Essas atitudes, sob o olhar dos profissionais de então, levaram Agnes a ser diagnosticada como sofrendo de paranoia resultante de um complexo de perseguição. Com o tempo, e apesar desse diagnóstico inicial, ela foi considerada mentalmente estável. Mesmo assim, ela ficou internada por dois anos na instituição de Dresden, sendo, depois, transferida para o Asilo Hubertusburg em 1895, aos 51 anos.

Ao chegar, seus pertences foram listados. Ela possuía: um casaco, quatro vestidos (sendo um de seda), três saias de lã (tecidas à mão), duas jaquetas, sete camisas, cinco lenços, catorze pares de meias, um par de ligas, dois pares de luvas, dois espartilhos, uma toalha de mesa, uma caixa de relógio, uma corrente, um conjunto de dentes e um par de óculos. As notas de admissão de Agnes em Hubertusburg (disponíveis no site da Coleção Prinzhorn) afirmam o seguinte:

No prontuário médico, ela é descrita como uma mulher pálida,

parece quase cinquenta anos mais velha do que realmente é,

está “deformada” devido a uma curvatura lateral da coluna,

representa um perigo “para si mesma e para os outros”.

Em que consistia isso não é explicado. Também é relatado

que ela ficou cada vez mais irritada com a polícia – que,

inicialmente, ela mesma chamou, pedindo ajuda devido ao

medo, mas, depois, acabaram a levando para a instituição - o

que foi visto como um estado de excitação e uma evidência

de seu “transtorno mental incurável”. (Coleção Prinzhorn)

 

Reafirmaram o diagnóstico de paranoia acrescentando, agora, a ocorrência de alucinação auditiva. Apesar da evidente piora, Agnes seguia sustentando a afirmação de que havia “acabado no asilo” por “conspiração da pior espécie, mentiras e enganos” (CONNETT, 2020). Em meio a todos esses rótulos institucionais, Agnes iniciou a confecção de sua jaqueta. De acordo com Heather King (2022), “Foi lá (em Hubertusburg) que ela pegou agulha e linha e começou a bordar textos no linho verde-acinzentado de sua jaqueta regulamentar do asilo, remodelada em seu próprio formato”.

Agnes ficou internada em Hubertusburg até a sua morte em 1918, aos 74 anos. Ao todo, Agnes passou vinte e cinco anos de sua vida como interna em instituições psiquiátricas.

 

A jaqueta


Estruturalmente, pode-se dizer que a peça é um trabalho de alfaiataria não convencional feito de linho grosseiro verde-acinzentado e lã marrom. A peça é bem costurada, mas as mangas estão pregadas ao corpo da jaqueta ao contrário, como se a peça fosse feita para ser usada com a abertura dos botões virada para as costas. Além disso, as mangas foram pregadas ao corpo da jaqueta com este em seu avesso.

A jaqueta está bordada por dentro e por fora, em camadas e mais camadas de texto escrito com linhas coloridas e uma caligrafia alemã antiga (o deutsche Schrift, também conhecido como Kurrent). O texto, de um lado do tecido, colide com o do outro, tornando difícil dizer quais pontos pertencem a qual lado. Além disso, os pontos na superfície interna foram desgastados pelo uso. Em sua totalidade, observa-se que a obra esteve, por muito tempo, envolvendo o corpo de Agnes, não apenas por estar moldada ao formato do corpo pequeno da artista, mas também pela presença de desgaste e manchas de suor.

Os bordados não foram ainda completamente decifrados dado o estado esgarçado de algumas formas escritas, a sobreposição de pontos internos e externos e a dificuldade em se compreender o deutsche Schrift. O que se pôde traduzir, até o momento dessa pesquisa, foram construções como: “minhas meias brancas”, “sem cerejas”, “irmão liberdade”, “meu dinheiro”, “ninguém em Hubertusburg”, “o meu casaco”, “não sou grande”, “estou em Hubertusburg”, “desejo ler” e “mergulho de cabeça no desastre”. Fora essas expressões há, ainda, por diversas vezes, o registro do número de lavanderia de Agnes: 583. Terminando a composição, há uma etiqueta que, de acordo com Isabella Rosner (2021) traz escrito o seguinte: “Agnes Richter, 1895. Demência precoce. Costurou reminiscências de sua vida em todas as suas roupas íntimas e roupas.”

De todas as roupas bordadas, chegam aos nossos tempos apenas a jaqueta e um lenço. Não encontrei nada acerca do lenço em minhas pesquisas.

 

Análise


Antes de iniciar qualquer análise em relação ao caso exposto anteriormente, é fundamental afirmar que todas as afirmações a seguir serão intensamente modalizadas no sentido de não perder de vista o fato de que se está tão só e unicamente estabelecendo uma hipótese com base na teoria psicanalítica sobre o caso apresentado. Qualquer hipótese levantada deve ser submetida ao manejo clínico no qual o analisando dá, ao analista, as pistas no sentido de sustentar ou rejeitar a ideia estabelecida. Trata-se, única e exclusivamente, de uma reflexão inicial. Outras reflexões, explorando outras hipóteses sobre o caso são esperadas, incentivadas e muito bem-vindas.   

  Pela pesquisa realizada, pode-se observar que Agnes pertenceu a uma família que se viu, muito cedo, em uma situação bastante difícil dada a morte precoce do pai. A morte do pai muito provavelmente resulta não apenas em uma delicada questão psíquica, associada ao luto, como também em uma séria questão social. Tomas Röske (2014) defende que “Em meados do século XIX, havia menos tolerância ao desvio das normas assumidas e uma estigmatização muito maior” o que termina por intensificar, de modo muito cruel, certa pressão social no sentido de fazer com que o sujeito busque se colocar em um patamar “ideal”. O fato de Agnes estar em uma família liderada por uma viúva, sem o amparo de uma figura masculina, pode ter gerado uma vasta série de incômodos frente aos desígnios do senso comum de então sobre o que deve ser uma “família ideal” e o que o desvio dessa norma pode acarretar. A falta do pai também pode ter sido o motivo pelo qual Agnes tivesse de se dedicar ao trabalho como empregada, mais uma vez transgredindo a norma do senso comum segundo a qual boas mulheres de família devem permanecer em casa, dedicando-se ao trabalho doméstico privado e aos cuidados dos filhos, não sair por aí como provedoras, em um movimento audacioso e prepotente. Finalmente, não há dados sobre a idade de Agnes na ocasião da morte de seu pai, contudo, a afirmação de uma morte precoce pode resultar em uma grave ausência da figura paterna quando Agnes estava atravessando o complexo de Édipo.

Para além da possibilidade de falta do pai no momento do complexo de Édipo, e não satisfeita em transgredir o senso comum alemão do final do século XIX em uma família atípica e trabalhando fora, Agnes, aos 36 anos, se mostra como uma mulher extraordinariamente corajosa e independente, migrando para os Estados Unidos, passando lá oito anos e acumulando algum dinheiro, fruto de seu trabalho. É provável que, além de trabalhar como empregada doméstica, Agnes também tivesse aprendido, em seu período de migração, o ofício da costura. Contudo, mesmo voltando para sua terra natal com a fortuna acumulada e como costureira, o período de migração pode ter sido extremamente difícil e até mesmo cruel sobretudo em termos inconscientes. Charles Melman, em sua obra Imigrantes: incidências subjetivas das mudanças de língua e país elenca vastíssima gama de atravessamentos extremamente dolorosos sofridos pelo sujeito em situação de imigração. Uma das mais relevantes, considerando o inconsciente, talvez seja o fato de que:


“[...] o significante perde ali sua faculdade de representar

o sujeito para um outro significante, a fim de ganhar

uma função de designação. Neste sistema, transforma-se

no signo que designa, que denuncia para alguém um sujeito

que se origina de um lugar não mais Outro, mas Estrangeiro.

É a dimensão do Outro que se encontra aqui abolida em

proveito de um reforço da certeza do bom direito do Mestre,

uma vez que o impossível ali somente é interpretado como

a contingência de um acidente de história. Como a

constatação da existência de um estrangeiro que, a partir

de então, deve ser destruído ou educado”

(MELMANN, C. p.17, 1992. Grifo nosso)  


A violência simbólica de se estar em um ambiente de língua estrangeira é semelhante à submissão do indivíduo ao desconforto da ausência da mãe. Não é à toa que nos referimos à nossa primeira língua pelo termo língua materna. Se, para Lacan, o inconsciente é linguagem, este é filho da língua mãe, em seu regaço se consola, acalenta e se aconchega. Em um ambiente de língua estrangeira, o inconsciente perde esse conforto, abandonando o status de linguagem, de significante, para assumir um posto menor, o de mera designação ou pior, o de denúncia de alguém não Outro, mas Estrangeiro que, conforme a citação, deve ser destruído ou educado.

De volta a Dresden, Agnes se vê com uma quantia razoável e sozinha. É importante detalhar um pouco mais a situação de solidão dela. Para além do fato de ser uma mulher solteira (o que poderia ter sido uma questão para Agnes ou não) é importante considerar o fato de que é comum, entre migrantes que passam muito tempo em terras estrangeiras, a queixa de que, ao voltarem pra casa, se sentem deslocados, sem lugar: a terra estrangeira segue sendo um lugar de passagem e a terra natal também parece não ser mais um lugar de pertencimento considerando o tempo de ausência do migrante, a dificuldade de manutenção de laços e vínculos com amigos e familiares dada a distância e o tempo para o estabelecimento de comunicação, as rotinas e o cotidiano extremamente diferentes, fora o desconforto de se estar, por muito tempo, em uma cultura que, ao invés de acolher, incomoda, exige esforço e adaptação. Tudo isso poderia convergir para que a solidão de Agnes se convertesse em um abismo muito profundo, denso em vazio e incompreensão.

  A angústia e a fragilidade, despertadas pelo profundo estado de solidão, podem ter sido intensificadas pelo fato de se estar responsável pelo dinheiro acumulado. É interessante observar como, pelo ponto de vista psicanalítico, é bem possível que o dinheiro ocupasse, para Agnes, o lugar do falo. Para Freud (2016), o falo é aquilo que produz, no sujeito, a ilusão da completude, é aquilo que mune o seu possuidor de algum poder, da fantasia de plenitude. No entanto, ao mesmo tempo em que o falo torna o seu possuidor, de alguma forma, pleno em relação ao vazio, ele o abandona à angústia da castração, ou seja, ao medo de ser tolhido, cerceado ou privado do falo. É possível e bastante razoável considerar a intensificação da angústia de castração como uma resultante do cenário de solidão através de um raciocínio contraditório, mas extremamente coerente: é possível que, por seu estado de solidão, Agnes utilizasse de seu falo para atrair pessoas para perto de si, ao mesmo tempo, a exposição do dinheiro poderia atrair interesseiros e ladrões, exatamente o que foi dito por ela aos policiais.

Os policiais, por sua vez, acabaram levando Richter, primeiramente, à prisão, depois ao Asilo Para Lunáticos da Cidade de Dresden. Não encontrei referências mencionando como foram obtidos os diagnósticos de paranoia resultante de complexo de perseguição, mas um item da pesquisa nos ajuda a refletir sobre esse ponto: depois de algum tempo de internação em Dresden, Agnes foi considerada estável, mesmo assim, ela é encaminhada para o Asilo Hubertusburg. A falta de dados sobre o diagnóstico e a posterior afirmação de um estado estável aponta para a possibilidade de que Agnes era uma mulher sã que realmente sofria tentativas de roubo. De acordo com Jan Gannett (2020), “seria fácil (para as autoridades de então), ao mesmo tempo, rejeitar as alegações de Agnes de encarceramento injusto, e rotulá-la por sua raiva e confusão. Mas ela também poderia estar correta em suas alegações”.

Partindo dessa “comodidade institucional” que preferiu afirmar Richter como uma desequilibrada, podemos cogitar em torno do fato de que Agnes é conduzida à instituição psiquiátrica de Dresden por incomodar os outros, não por algum tipo de preocupação com o bem-estar dela e com uma pretensa recuperação. Nesse sentido, Agnes é incisivamente aproximada às mulheres descritas por Maria Clementina Pereira Cunha no artigo Loucura, gênero feminino: As Mulheres do Juquery na São Paulo do início do século XX”. No mencionado artigo, a autora mapeia toda uma engrenagem social e institucional para enclausurar, sobretudo, mulheres, contemporâneas à Richter, que incomodavam o status quo de então. Observe o trecho a seguir do prontuário de Eunice:


Eunice. Diagnóstico: loucura maníaco-depressiva.

Precoce e estranha vivacidade intelectual, constantes

elogios dos professores e colegas a teriam deixado

orgulhosa. Talvez, num certo sentido, com algum

fundamento, pois apenas 3 anos após a sua formatura

ela já dirigia um grupo escolar público em Santos, para

onde se mudou e passara a viver só. Começou a ter

estranhos comportamentos: escrever livros escolares,

fundar escolas noturnas para alfabetizar adultos comprar

livros e livros para ler. Pior do que isso, começava a se revelar

completamente independente não admitindo a intervenção

de pais ou do irmão em suas escolhas pessoais. A hiperexcitação

intelectual é expressamente relacionada com o fato de que,

aos 30 anos, Eunice permanecia solteira. (Cunha, 1989. p. 124 - 125)


Observe como a descrição de Eunice se aproxima da descrição de Agnes, disponível no site da Coleção Prinzhorn (mencionada no subtítulo Agnes Richter), tanto no que diz respeito ao sucesso profissional de ambas quanto à perversidade do diagnóstico e, até mesmo, à maldade gratuita das descrições. Talvez a descrição de Agnes seja mais cruel, valendo-se de termos tais como “deformada” e “parece quase cinquenta anos mais velha do que realmente é”.

Ao chegar em Hubertusburg, a descrição muda, agora há menção ao fato de Agnes ouvir vozes, o que pode resultar do tratamento recebido nos dois primeiros anos de internação em Dresden ou, simplesmente, da necessidade de justificar, mesmo sem fundamento, o prolongamento da internação.

É interessante observar a lista de itens que Agnes possuía ao chegar em Hubertusburg. Alguns itens, como o vestido de seda, o casaco, a caixa de relógio e a pulseira, denunciam que ela tinha alguma condição financeira. Mesmo com esses indícios, em toda a pesquisa realizada, não se observou uma única menção ao que teria acontecido com o dinheiro de Agnes. Foi destinado a algum familiar vivo ou ficou nas mãos daqueles maiores interessados em sua internação?

Com a entrada em Hubertusburg, Agnes começa a elaborar a jaqueta. Além do trabalho estético do bordado, Agnes também realiza toda uma reestruturação da peça: as mangas foram recosturadas na jaqueta com o corpo ao avesso e virado para trás, à semelhança de um casaco de forças. O psiquiatra Thomas Röske em seu artigo Agnes Richter's jacket observa a aproximação da jaqueta de Agnes com a peça de contensão:


O arquivo menciona que a parte superior do corpo de

Richter foi “deformada” por uma flexão lateral da

coluna vertebral. Teriam os pontos, portanto, outra função

que não a de formar o busto à frente – dar lugar à ‘corcunda’?

A jaqueta estava abotoada nas costas? Esse uso suscitaria,

principalmente no contexto psiquiátrico, associações com a

camisa de força. Seja qual for a forma como analisamos os

fatos intrigantes, torna-se claro que a jaqueta era para Richter

mais do que apenas uma peça de vestuário. Com ela, Richter

expressou simbolicamente a sua situação. (RÖSKE, 2014)

 

O que estaria representado no ato de transformar a jaqueta institucional em algo tão próximo a uma peça de contensão? Contardo Calligaris (2000), ao considerar o revoltante estágio de “moratória indefinida” ao qual o adolescente é submetido, ressalta o fato de que este acaba por interpretar o desejo que o adulto projeta sobre ele. Assim, o jovem acaba compreendendo que é esperado que ele transgrida, o que produz um paradoxo: se a transgressão é esperada, logo, transgredir é obedecer e obedecer é transgredir. Confusos diante de tal situação, Calligaris afirma que os jovens passam a se comportar de acordo com um grande espectro de possibilidades indo desde a mais profunda anulação do próprio desejo, produzindo uma obediência absoluta, até a mais violenta transgressão. Podemos cogitar que a internação coloca Agnes em um estado de moratória parecido com o do adolescente, mas com um agravante: ela já foi considerada adulta e já foi uma mulher independente, aquilo que o jovem não sabe que lhe é privado já é conhecido por Richter, o que, sem dúvida, intensifica o seu sofrimento. Assim como o jovem, Agnes vai agir diante de tal imposição: ela mesma confecciona para si o instrumento de contensão na tentativa de satisfazer o desejo de castração que a instituição psiquiátrica impõe sobre ela. Ela se coloca no lugar de mulher casta, obediente, contida que ela enfrentou e negou com suas escolhas ao longo de toda a sua vida. A confecção e uso da jaqueta pode constituir um símbolo maior de sua rendição diante das imposições institucionais.

Figura 2 Clarie Danes interpretando Temple Grandin usando a máquina do abraço
Figura 2 Clarie Danes interpretando Temple Grandin usando a máquina do abraço

Para além de observar a jaqueta como uma tentativa de obediência, pode-se também entendê-la como um instrumento não de contensão do desejo e do movimento, tendendo à paralisia, mas como um instrumento de unidade, de estruturação, uma contenção contra a fragmentação e a dilaceração do eu, um meio de produzir uma espécie de holding. O filme Temple Grandin conta a história real de uma mulher autista severa que chega ao doutorado e se torna uma autoridade em edificação de matadouros e produção de carne bovina nos Estados Unidos. Temple constrói para si uma “máquina do abraço”, uma engenhoca que, ao acionar um mecanismo, pressionava e limitava as laterais do seu corpo com duas tábuas. Ela utilizava a sua máquina sempre quando se via no limiar de uma crise, e o abraço mecânico tinha sobre ela o poder de reorganização ante à fragmentação, de reestruturação ante ao caos. É possível que Agnes também tenha utilizado o seu casaco com uma função semelhante à da máquina de Temple.

Mais do que um possível instrumento de rendição ou de reorganização, a jaqueta ainda

A máquina do abraço projetada por Temple Grandin, aprimorada e utilizada no tratamento de autistas
Figura 3 A máquina do abraço projetada por Temple Grandin, aprimorada e utilizada no tratamento de autistas

preserva a sua face expressiva através dos bordados. Considerando-os, observa-se que as frases decodificadas até o momento podem ser organizadas em dois grupos distintos: um grupo fazendo referência a objetos materiais vistos como falo, e o outro tratando de questões subjetivas:

 

• Grupo de elementos fálicos: “minhas meias brancas”, “sem cerejas”, “meu dinheiro”, “o meu casaco”.

 

• Grupo de elementos subjetivos: “irmão liberdade”, “ninguém em Hubertusburg”, “não sou grande”, “estou em Hubertusburg”, “desejo ler” e “mergulho de cabeça no desastre”

 

Considerando, primeiramente o grupo de expressões que fazem referência aos elementos fálicos, aos elementos que Richter deveria gostar e que deveria consumir com o dinheiro que possuía, chama a atenção a presença do pronome possessivo referente à primeira pessoa em cada um deles, o que pode não apenas reforçar o caráter fálico dos itens como também pode trazer algo de uma delimitação do eu de Agnes (reforçando assim a tese da jaqueta enquanto elemento organizador). Agnes estrutura o seu eu em torno dos objetos que possui, uma visão bastante comum de um sistema econômico de acúmulo como já era em seus tempos e como ainda é hoje em dia: “ter” substitui “ser”. Obviamente, a ancoragem da caraterização do eu em torno da posse de elementos materiais não é suficiente e tal dependência pode ter agravado o quadro. Considerando tal dependência e presumindo que Agnes foi privada desses itens durante a internação, surge aí mais uma face da castração. Se para além da estruturação do eu em torno desses objetos houver a relação de enquadre do não-eu de Richter em torno desses itens, o afastamento de tais elementos pode ter agravado ainda mais o seu estado, desestabilizando a sua meta-conduta. Todos se iniciam com um pronome possessivo de primeira pessoa exceto um: “sem cerejas”. Essa expressão apresenta um traço em comum com as outras na medida em que todas elas soam como um lamento, uma tristeza diante da perda, reforçando o caráter castrador imposto pela instituição ao recolher os itens.

O segundo grupo, no geral, vai reforçar o sentimento de solidão e castração já mencionados anteriormente exceto por uma expressão que parece não se enquadrar: “mergulho de cabeça no desastre”. A expressão constitui uma oração, ou seja, possui uma organização estabelecida entre um sujeito e um verbo, um "eu" que age, a elaboração denota não a ação desse sujeito sobre um objeto, mas em uma determinada circunstância delimitada por uma adjunto adverbial de modo (de cabeça) e uma adjunto adverbial de lugar (no desastre). Para além da sintaxe mais abstrata, desprovida de objetos, o que captura a impossibilidade de ação do sujeito sobre um objeto definido, a oração ainda revela um movimento consciente e brusco de queda. É comum, no discurso de psicóticos, a descrição do momento de crise como uma queda, como a perda do chão, o abandono completo de si no abismo.

É fascinante observar como Agnes agiu, não apenas falando, mas registrando o sentimento abissal que a assaltava em seus bordados. É o conflito implacável da lucidez, resgatada e preservada pela delicadeza da linha e da agulha, contra a imensidão do dilaceramento. Agnes lutou bravamente contra o abismo, com a agulha na mão e nos movimentos mais singelos e mais sinceros dos seus bordados. Ela deixou registrado, em uma fascinante obra de arte, os traços mais profundos de sua luta entre a loucura e a lucidez.    

 

Considerações finais


A jaqueta de Agnes Richter é uma peça de valor inestimável na medida em que testemunha a via artística de defesa e reorganização da psiquê humana em meio a um duelo fatal do eu entre sua unidade e dilaceração abissal. Assim como Richter, outros também empreenderam a mesma batalha munindo-se das mesmas armas: Arthur Bispo do Rosário, Lorina Bulwer, Elizabeth Parker, Adolf Wölfli e Myrllen são apenas alguns poucos nomes que a história da psiquiatria, tão acometida pela crueldade da hegemonia de então, pôde preservar. O que haveria em comum e o que haveria além na ação de todos esses resistentes, singelas fortalezas, de agulha em mão?


Referências

 

BLEGER, J. Psicanálise do enquadre psicanalítico. Revista FEPAL – Mudanças e Permanências. p. 103 – 113. Setembro de 2022.


CALLIGARIS, C. A Adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/5972679/mod_resource/content/1/349536000-A-Adolescencia-Contardo-Calligaris.pdf Com último acesso em: 01 de maio de 2024.


CONNET, J. Agnes Richter’s jacket. 25 de junho de 2020. Disponível em: https://stitching.blogs.bristol.ac.uk/2020/06/25/agnes-richters-jacket/ Com último acesso em: 01 de maio de 2024.


CUNHA, M. C. P. Loucura, gênero feminino: As Mulheres do Juquery na São Paulo do início do século XX. Agosto de 1989. Disponível em: https://www.anpuh.org/arquivo/download?ID_ARQUIVO=3853 Com último acesso em: 01 de maio de 2024.


FREUD, S. Obras completas volume 6: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Cia das Letras, 2016.


FREUD. S. Obras completas volume 16: o eu e o id. Tradução de Paulo César de Souza São Paulo: Cia das Letras, 2011.


HUBERTUSBURG. Verbete Agnes Richter. Disponível em: https://www.sammlung-prinzhorn.de/sammlung/kuentlerinnen-der-sammlung-prinzhorn/richter-agnes Com último acesso em: 01 de maio de 2024.


KING, H. What Agnes’ jacket tells us about suffering. 15 de julho de 2022. Disponível em: https://angelusnews.com/voices/what-agnes-jacket-tells-us-about-suffering/ Com último acesso em: 01 de maio de 2024.


MELMAN, C. Imigrantes: incidências subjetivas das mudanças de língua e país. Tradução de Rosane Pereira. São Paulo: Escuta, 1992.


RÖSKE, T. Agnes Richter's jacket. 13 de junho de 2014. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6998268/ Com último acesso em: 01 de maio de 2024.


ROSNER, I. I plunge headlong into disaster: unstitching Agnes Richter’s Jacket 02 de setembro de 2021. Disponível em: https://thepolyphony.org/2021/09/02/i-plunge-headlong-into-disaster-unstitching-agnes-richters-jacket/ Com último acesso em: 01 de maio de 2024.


TEMPLE Grandin. Direção de Mick Jackson: Estados Unidos: HBO Max, 2010. Disponível no canal de Streaming Max no link: https://play.max.com/movie/670fcfdd-b70b-4826-8966-66370ee59e7d Com último acesso em: 01 de maio de 2024.


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WINNICOTT, D. W. Holding e interpretação. Rio de Janeiro: Martins Fontes, p. 23-33, 1991.


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