A loucura que inspira
- Luciana de Paula

- 15 de nov. de 2024
- 5 min de leitura
Atualizado: 16 de nov. de 2024
A postagem de hoje é a tradução livre de uma reportagem do jornal inglês The Guardian de 23 de novembro de 2012. O texto trata do processo de composição de Jocelyn Pook em relação à sua obra Hearing Voices (Ouvindo Vozes), uma composição musical e performática que trata do tema da doença mental. A reportagem me chamou muito a atenção não apenas por se tratar de Pook, compositora que muito admiro, mas também por tratar da Jaqueta de Agnes, artefato que muito me intrigou pela enorme semelhança com o manto do brasileiro Arthur Bispo do Rosário, artista cuja produção se deu, acredito eu que em grande parte, em seu período de internação em hospitais psiquiátricos. Prometo retomar a incrível semelhança entre as duas obras artísticas em um post futuro. Antes de iniciarmos a tradução, vale mencionar que Jocelyn Pook é uma compositora e violista inglesa que participou em trilhas sonoras de filmes incluindo a adaptação de Michael Radford para O mercador de Veneza e o filme de Stanley Kubrick, De olhos bem fechados, com a emblemática Masked Ball.
Jocelyn Pook: inspirada pela doença mental
Trabalhando nessa obra eu percebi que a noção de ouvir vozes naturalmente se refere a ideias musicais e de exploração

Na Coleção Prinzhorn, no Hospital Universitário Psiquiátrico de Heidelberg está uma jaqueta que foi feita e usada por uma costureira: Agnes Richter que, na segunda metade do século XVIII, foi interna de uma instituição de saúde mental alemã. Agnes criou uma belíssima jaqueta com uniformes hospitalares rasgados e cobriu cada centímetro dela com letras bordadas. Embora em grande parte indecifráveis, algumas palavras e frases foram decodificadas.
Encontrei esse artefato notável no livro de Gail Hornstein, Agnes's Jacket: A Psychologist's Search for the Meanings of Madness (A jaqueta de Agnes: uma busca psicológica pelo significado da loucura, sem tradução para o português). Hornstein está interessada no fato de que os pacientes contem suas próprias histórias. O seu livro faz parte de um conjunto cada vez maior de obras que podem ser caracterizadas como literatura de protesto, na medida em que registam um sentimento de injustiça no tratamento e a falta de compreensão que estas pessoas têm sofrido. É também um documento que tenta dar sentido ao que acontece com os pacientes de instituições mentais quando não recebem o apoio daqueles que deveriam ajudá-los.
Usei algumas das frases decifradas da jaqueta de Agnes em meu novo ciclo de canções dramatizadas chamado Hearing Voices, para mezzo soprano, vozes gravadas e orquestra. Mas o projeto começou muito mais próximo ao meu percurso familiar pessoal, com a história da minha tia-avó Phyllis, que esteve numa instituição por 25 anos. Minha irmã morreu em decorrência de sua doença mental e minha mãe também sofreu um colapso nervoso. Quando Phyllis morreu, ela deixou um baú com seus pertences para minha mãe, e nesse baú descobrimos uma série de escritos que Phyllis havia produzido na tentativa de dar sentido ao que estava acontecendo com ela.

A escrita às vezes é maravilhosamente poética e muito caprichosa. Minha mãe ficou muito indignada com o que aconteceu com Phyllis. Ela era uma mulher muito capaz, e minha mãe suspeitava que ela estava praticamente administrando o hospital em que trabalhava quando foi internada. Mas ela era excêntrica e autodepreciativa, e sempre foi ligeiramente ridicularizada em uma família militar muito convencional. Bem-humorada e distraída, ela se vestia de maneira descuidada, sempre de malva, usava chapéus (parecidos com casinhas decorativas que guardam chá, um utensilio comum nas cozinhas inglesas) para cobrir os cabelos rebeldes, e, quando adoeceu, na década de 1930, provavelmente precisou de ajuda, pois estava ficando cada vez mais isolada.
Suas anotações sobre aquela época constituem um documento extraordinário. Ela registrou o que as vozes diziam, e se você conhece os detalhes da vida dela, muito do que foi registrado faz um estranho sentido. Depois de um ou dois anos ela estava melhorando e deveria ter sido liberada, mas a família a manteve no asilo e seus poemas desse período revelam a grande tristeza que ela sentia pelo encarceramento.
Phyllis era madrinha da minha mãe e sua tia favorita. O vínculo entre elas foi fortalecido pelos problemas de saúde mental da minha mãe. Seu colapso na década de 1950 foi

considerado por sua família como um terrível constrangimento e uma desgraça. Minha mãe, Mary Pook, não apenas preservou os escritos de Phyllis, mas também escreveu seu próprio romance, In Two Minds (Em duas mentes, sem tradução para o português), com o pseudônimo de Mary Cecil, sobre sua doença e a resposta médica lhe dada. Minha mãe foi submetida à, agora abandonada, terapia de choque profundo com insulina. Ela recebeu grandes doses de insulina, que induziram ao coma e à horrível sensação de quase morrer. Isso se deu em um curso de 30 dias e ela saía de um tratamento e passava o resto do dia temendo o próximo. Aprendi, no livro de Gail Hornstein, que o dançarino Nijinsky passou por mais de 200 desses tratamentos, o que acabou por arruiná-lo (Vlaslav Nijinsky foi um extraordinário bailarino e coreógrafo russo acometido por esquizofrenia aos 29 anos em 1919).
Trabalhando nesta obra percebi que a noção de “ouvir vozes” se presta naturalmente a ideias musicais e de exploração. Colaborei com a diretora Emma Bernard na criação de um texto a partir dos depoimentos de Agnes, de minha mãe e de minha tia-avó, bem como das artistas Bobby Baker (artista inglesa) e Julie McNamara (diretora de teatro inglesa), que sofreram problemas de saúde mental e usaram suas experiências em seus trabalhos. Também trabalho com a mezzo soprano Melanie Pappenheim explorando expressões e usos incomuns da voz. Melanie trabalha não apenas com a BBC Concert Orchestra para cantar as obras de Phyllis e Agnes, mas também com fragmentos gravados de Bobby, Julie e minha mãe.
As cinco mulheres representam cinco gerações diferentes, mas estão ligadas por mais do que apenas os seus históricos de saúde mental. Todas elas têm uma forte presença criativa em suas vidas. Como sociedade, valorizamos as percepções incomuns sobre o nosso mundo fornecidas por pessoas criativas, mas ter uma sensibilidade elevada no mundo ao nosso redor pode ser muito difícil.
Eu queria que essa ideia se refletisse na música e na performance, de uma forma que parecesse fiel às nossas experiências e observações. Portanto, a performance não é um monte de caretas e gritos malucos, mas lida com os momentos mais íntimos de dor. A peça de Phyllis é a seção mais agitada do ciclo de canções, pois ela fica cada vez mais confusa e oprimida pelas vozes que ouve, contudo, como a peça foi inspirada por passagens que surgiram nos depoimentos, houve alguns elementos inesperados. Uma das peças trata de ver o lado engraçado e usar o humor como uma espécie de mecanismo de sobrevivência no qual Bobby Baker se destaca mesmo nos momentos mais sombrios. Esta peça em particular é impulsionada por gravações das risadas das mulheres e das melodias de risadas que também anotei.
Este não é um trabalho escrito especificamente para mudar a opinião das pessoas ou para melhor informá-las sobre problemas de saúde mental. É um trabalho de música e performance. Mas percebo que o facto de ter tomado isso como assunto é, em certo sentido, político, e se provocar uma consciência mais ampla da doença mental, então, tanto melhor.
Referências
Imagens



Comentários